“O feminicídio no Brasil é negro, mas ninguém fala isso”, diz Jaqueline de Jesus no Copene 2020

10 novembro, 2020
18:55
Por edhomologa1
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UFPR

A professora e pesquisadora Jaqueline de Jesus não se surpreendeu com a descoberta, divulgada no fim de setembro, de que a matriz genética do brasileiro, em geral, soma DNA materno negro e indígena e DNA paterno branco. O resultado preliminar do projeto científico DNA Brasil, dedicado ao sequenciamento genético da população, joga luz sobre interseccionalidades de uma violência sexual tão histórica que atuou na composição do povo brasileiro. “É uma discussão que fala do que as mulheres negras estão vivendo há séculos”, afirmou durante a conferência online “Interseccionalidades” realizada nesta terça-feira (10), segundo dia do XI Congresso de Pesquisadores(as) Negros(as) (Copene).

Em linhas gerais, interseccionalidade é um modelo teórico que permite identificar diferentes opressões, entre elas, as de gênero e as de raça. Para Jaqueline, que é pesquisadora em psicologia social, professora no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e ativista política, interseccionalidade é um princípio (ético) antes de ser um conceito (acadêmico). Daí sua indignação com visões parciais sobre os fenômenos sociais, o que inclui a invisilização das mulheres trans e travestis — grupo do qual ela, mulher trans negra, faz parte.

Jaqueline de Jesus, acima no frame, e a mediadora, Aparecida de Jesus Pereira

Um exemplo mencionado pela professora é o que hoje se conhece por feminicídio, isto é, o assassinato de mulheres que decorre da discriminação de gênero. “O feminicídio no Brasil é negro e ninguém fala isso. Essas mulheres não estão na TV”, lembra. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020, das 1.326 vítimas de feminicídio no Brasil em 2019, quase 67% eram negras.

Também de acordo com a fala de Jaqueline, no interior dessa realidade existe outra de pouca repercussão e ainda menos dados, que é a violência sofrida por mulheres trans e travestis. Segundo o mesmo anuário, só 11 Estados produzem estatísticas sobre a violência que tem como alvo grupos LGBTQI+. O cálculo nacional tem ficado a cargo de entidades que representam esses grupos. “O Brasil é o país com maior número de feminicídios — e, vou repetir — feminicídios [enfatiza] contra mulheres trans e travestis no mundo. Em termos relativos, Honduras e República Dominicana têm mais”, lembra.

A pesquisadora defende que ignorar essas realidades contribui para que elas se perpetuem. Ou seja, deixa-se de reconhecer a LGBTfobia e o racismo como elementos da violência. A expressão “racismo como motor de violência” intitula o estudo da Rede de Observatórios da Segurança que denunciou, em setembro, a falta de estatísticas no Brasil sobre o tema e a desigualdade que, mesmo parciais, os dados oficiais revelam.

Transfeminismo

Na visão da pesquisadora, a interseccionalidade precisa ser uma ferramenta para políticas sociais. Jaqueline aprofundou essa orientação teórica ao estudar a ativista política Sojourner Truth (1797-1883) — que nasceu escravizada nos Estados Unidos e, analfabeta, deixou só produção oral — e autoras que se inspiraram nela. “A política pública é o que traz um significado ao significante. Nosso grande desafio já de alguns séculos, que a Bel Hooks retoma ao pensar o feminismo negro, com o qual o transfeminismo aprendeu”, avalia.

O transfeminismo é o principal objeto de pesquisa de Jaqueline e a preocupação em ser didática quanto a ele pode ser notada em sua produção. Segundo o Google Acadêmico, os trabalhos mais citados da pesquisadora trazem beabás sobre identidade de gênero e transgeneridade, apresentando conceitos e como se relacionam.

Não é tarefa fácil, ela lembra. “Se o imaginário cisgênero [da pessoa que se reconhece no sexo com o qual nasceu] está colocado [no acadêmico], e não admite a produção das pessoas trans, existe impedimento imediato. Ocorre uma leitura de que é experiência de vida, mas não produção de conhecimento. Para além de apenas transfobia, é uma forma de epistemicídio”, explica ela, citando o termo cunhado por Boaventura de Souza Santos e retomado por intelectuais como Sueli Carneiro.

A solução, acredita ela, passa por ocupação de espaços. Ela reforça que o processo é complexo e exige vigília, porque inclui o uso dessa representatividade para fins opostos ao do combate a opressão (“é o jogo do neoliberalismo e do neoconservadorismo, eles podem ser toscos, mas não são burros”).

Também há soluções “singelas”, como o aceite de nome social na inscrição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que ocorre desde 2014. “Com certeza quem pensou nisso nem pensou muito em interseccionalidade, mas estava afetado por esse princípio”, disse ela, ao recordar o caso de uma aluna que foi estimulada a ingressar no IRFJ por cauda dessa possibilidade.

Veja a conferência na íntegra:

Sobre o Copene 2020

Neste ano, o Copene será realizado em duas fases, segundo reorganização necessária devido à pandemia de Covid-19.

A primeira será online, de 9 a 12 de novembro, com a conferência de abertura, no dia 9, com a escritora Conceição Evaristo, mesas redondas e a publicação do caderno de resumos das sessões temáticas As apresentações de trabalho foram transferidas para a Semana da África, de 24 a 26 de maio, no Campus Rebouças da UFPR, em Curitiba.

O congresso é realizado anualmente pela ABPN e, neste ano, tem organização da UFPR, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e do Instituto Federal do Paraná (IFPR). Também participa da promoção o Consórcio Nacional dos Núcleos de Estudos Afro-brasileiros, do qual faz parte o Neab da UFPR, e a Superintendência de Inclusão, Políticas Afirmativas e Diversidade (Sipad) da UFPR.

Há 20 anos a ABPN atua para o fortalecimento profissional de pesquisadores negros e a consolidação dos campos temáticos de pesquisas de forma a garantir multiplicidade de pensamento em todas as áreas do conhecimento.

Leia mais notícias sobre o Copene 2020 neste link

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