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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ


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Método de ensino incentiva o protagonismo dos estudantes na sala de aula ao unir ensino e pesquisa

O método convencional de ensino, onde o professor utiliza o quadro negro ou apresentação de slides para transmitir informação, é o predominante em qualquer nível de formação. No entanto, alguns pesquisadores defendem que o modelo tradicional deve ser substituído por métodos alternativos que instiguem a participação ativa dos alunos no processo de aprendizado. 

A partir dessa perspectiva, docentes da Universidade Federal do Paraná (UFPR) buscam ministrar disciplinas que permitam aos estudantes desenvolver habilidades de aprendizagem independente e de solução de problemas reais, de forma a promover a integração de dois pilares da instituição — o ensino e a pesquisa — com a produção de material publicável. 

O professor do Departamento de Zoologia da UFPR, Fabricius Maia Chaves Bicalho Domingos, é adepto do evidence-based teaching, do inglês, ensino baseado em evidências, que, a partir de pesquisas sobre aprendizagem, visa estipular técnicas de ensino mais efetivas. Dessa forma, o docente utiliza técnicas chamadas de CURE, sigla em inglês para classroom-based undergraduate research experience, ou experiência de pesquisa em sala de aula para a graduação, complementadas pelas técnicas do ensino científico (scientific teaching). 

“É difícil dizer qual método exatamente eu utilizo nas minhas atividades. Eu gosto de chamar estas experiências que tenho realizado de Ensino Científico, apenas porque acho que é um nome legal e com o qual os alunos se identificam”, explica Fabricius. 

Segundo o professor, a maneira como ele conduz as disciplinas proporciona aos alunos um espaço para que possam desenvolver o conhecimento durante uma pesquisa científica, que é planejada e realizada dentro da sala de aula, o que incentiva o aprendizado ativo, uma vez que os estudantes devem buscar informações e soluções de forma independente, raciocinar sobre problemas e discutir em grupos. Ainda segundo Fabricius, a pesquisa faz com que os discentes tenham uma forma alternativa de expor e desenvolver os conceitos teóricos necessários, alinhando-os diretamente à experiência prática de coleta e análise dos dados. 

“O engajamento ativo dos estudantes e o trabalho em grupo são coisas bem claras e que sempre aparecem no ensino baseado em evidências”, afirma Fabricius. Foto: arquivo pessoal. Disciplina ministrada em janeiro de 2020, antes da pandemia.

“Antes de mais nada, os alunos devem estar cientes de como o método funciona, do porquê trabalharemos daquela forma e das vantagens de fazer isso. Eu dou a oportunidade de os alunos refletirem e opinarem sobre o andamento das aulas, sobre os temas que iremos abordar e até como faremos isso”, explica o professor. Para ele, o engajamento ativo dos estudantes em discussões, a leitura crítica, a autoavaliação ao longo da disciplina e o trabalho em grupo são ferramentas essenciais para um aprendizado efetivo. 

Luddy Searom Carias de Moraes está concluindo a licenciatura em Ciências Biológicas e, durante as férias, participou das aulas que o professor Fabricius ministrou. O estudante conta que não gosta de realizar trabalhos em equipe, mas que teve uma experiência agradável na disciplina. “Foi o trabalho em grupo mais intenso, organizado e cooperativo que eu já tive e aprendi muito com ele. Foi super interessante ver todos ocupados em prol do mesmo objetivo”, afirma.

“Foi uma disciplina de férias, então foi uma imersão. Nem víamos o tempo passar, sempre tinha o que fazer. Foi uma das melhores matérias que eu tive durante a graduação e é muito gratificante ver o trabalho que fizemos sendo publicado como um artigo”, comenta o estudante. 

Aprender diferente estimula a ensinar de forma diferente

Alessandra da Conceição Zanin, mestra pela UFPR em Educação em Ciências e em Matemática, realizou a Prática em Docência do mestrado na disciplina Produção de Material Didático em Zoologia, ministrada por Fabricius. Para ela, o diferencial de observar como o professor conduziu as aulas foi ter a percepção de que não há a necessidade de hierarquias na sala de aula.

“Eu procurei o Fabricius para saber mais sobre a disciplina. Ele falou o que pensava dela e me mostrou toda a dinâmica de como funcionava. Desde o princípio ele me incluía, me perguntava o que eu achava, foi uma troca bem produtiva para mim. Isso tudo, com certeza, agregou na minha formação. Durante toda a produção, os alunos podiam discutir com o professor, o que é importante, principalmente na licenciatura, pois mostra que é possível ter essa relação com os estudantes, que não precisa ter superioridade entre os docentes”, conta.

Segundo Alessandra, utilizar métodos que deem protagonismo aos alunos e os incentivem a interagir com os professores é algo que está ganhando força no ambiente educacional. “A partir da pesquisa que eu fiz no mestrado, é perceptível que os professores hoje já têm uma visão diferente”, afirma. Para ela, utilizar métodos de ensino que não sejam os tradicionais durante a graduação pode gerar resultados em cadeia. 

“A formação de professores está tendo uma abordagem diferente. Se a graduação está formando docentes, por que não trazer outras formas de aprendizagem? Se os licenciandos estão se formando com outros métodos, eles percebem que também existem outras formas de ensinar”, comenta.

Foi o que aconteceu com Fabricius durante a formação acadêmica. Era o método utilizado pelos professores que fazia com que se interessasse pela matéria. “Eu sempre odiei a escola, mas eu amava aprender, conversar, discutir e questionar. Lembro de só gostar quando o método do professor não era o tradicional. Durante a minha graduação, percebi que a minha preferência pelos assuntos era devido aos docentes que usavam métodos diferentes”, relata. 

O professor da UFPR adotou formas alternativas de lecionar após realizar um estágio acadêmico durante um doutorado na Austrália. Segundo Fabricius, a experiência que teve no curso era alinhada ao ensino baseado em evidências e resultou numa monografia sobre a necessidade de professores serem “legais e atenciosos” em sala de aula.

Métodos diferenciados se tornaram efetivos nas aulas de Fabricius quando ministrou uma disciplina enquanto realizava o pós-doutorado na Universidade de Brasília (UnB) com duas docentes que também tinham experiência prévia com outras formas de ensino. A disciplina consistia na interação teórico-prática sobre taxonomia, cujo objetivo era que os alunos aprendessem taxonomia enquanto faziam taxonomia na prática. “Lecionar esta disciplina foi um divisor de águas na minha vida! O que aprendi na época me garante mais agilidade e confiança ao lecionar hoje”.

Ensino aliado à produção científica

A experiência no exterior  também foi o que ensinou ao professor do Departamento de Botânica da UFPR, Marcelo Pedrosa Gomes, uma nova forma de dar aula. Ele realizou o doutorado no Canadá, onde aprendeu que a capacidade de solucionar problemas envolvendo o tema tratado é mais importante que a teoria. “As minhas aulas são teórico-práticas, pouco expositivas e com mais discussões e conversas com os alunos. Eu trago uma questão e eles precisam bolar um experimento para respondê-la. Ao final, o produto é um artigo, sempre publicado em revistas de elevado fator”, explica. 

Segundo o docente, o retorno por parte dos alunos costuma ser positivo, pois eles são motivados a publicar um artigo, em vez de apenas cumprir uma disciplina. “Além de agregar ao currículo, estimula a responsabilidade científica, treina para enfrentamento de desafios e os torna capazes de planejar o tempo e o dinheiro que serão gastos na atividade”, afirma. 

O doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação, Rafael Shinji Akiyama Kitamura, participou de disciplinas ministradas pelos professores Fabricius e Marcelo e, da perspectiva do estudante, está de acordo com os apontamentos dos docentes.  “Além de sermos orientados a redigir corretamente um artigo científico, ainda temos a chance de, a partir de aulas que tendem a ser mais dinâmicas, incrementar os nossos currículos. Acredito que isso pode até estimular mais os discentes que participam dessas disciplinas,  principalmente durante uma pós-graduação”, relata .

Rafael pretende continuar na academia após a conclusão do doutorado. Ele deseja poder desenvolver pesquisas na universidade e orientar novos alunos. “Quero levar o conhecimento a quem tem interesse e transmitir, com todo o amor, tudo aquilo que já me foi ensinado”, declara. 

Entre os aprendizados de Rafael, está a forma de lecionar. Ele quer seguir os passos dos professores, buscando sempre novas maneiras de ensinar. “Acredito que precisamos nos moldar conforme o tempo passa. O professor precisa se adaptar, de modo que o conhecimento possa ser transmitido da melhor maneira. Criar disciplinas em que os alunos consigam ter um estímulo e até maior motivação para a carreira acadêmica, é de grande importância”, afirma. 

Apesar dos benefícios de seguir métodos de ensino alternativos, a forma como a educação é estruturada representa um obstáculo para os professores fugirem do ensino tradicional. No caso de Marcelo, o professor implementou as mudanças apenas nas aulas que ministra na pós-graduação, em que o número de alunos é reduzido. 

“Oportunizar a aprendizagem direcionada aos interesses dos alunos, mesmo que limitadas de certa forma pelas ementas, é possível”, afirma Fabricius. Foto: arquivo pessoal. Disciplina ministrada em janeiro de 2020, antes da pandemia.

Fabricius também relata dificuldade em variar na graduação. O docente comenta que nem sempre tem a liberdade para aplicar o Ensino Científico. “Uma disciplina obrigatória, com ementa amarrada e mais de 40 alunos em sala de aula, dá pouco espaço para inovar”, diz.

No entanto, segundo ele, essas limitações não impedem que os professores estimulem reflexões importantes entre os estudantes.  “Eu acho que ensino deve ser divertido. Os alunos devem ficar felizes em sala, devem sair da aula e continuar conversando sobre a matéria, mas devem, principalmente, raciocinar criticamente sobre o processo de aprendizado. Estudantes felizes aprendem mais e com mais qualidade. Um método que dá liberdade aos alunos, consequentemente traz mais segurança aos professores de que estão no caminho correto”, finaliza.

Por Letícia Barbosa Ribeiro

Sob orientação de Jéssica Tokarski

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