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UFPR forma aluna surda bilíngue atendida por programa de apoio

Aos 22 anos, Carolina Carvalho Palomo Fernandes tornou-se nesta sexta-feira (24) a primeira pessoa surda usuária da Língua Brasileira de Sinais (Libras)  a receber um diploma de graduação na Universidade Federal do Paraná em Curitiba (antes, a instituição já havia diplomado uma aluna no Setor Litoral). A formatura em Pedagogia reuniu, além da família, representantes da comunidade surda, professores e tradutores de Libras que estiveram ao lado de Carolina ao longo do curso, num processo que vem abrindo portas para o ingresso de outros alunos surdos na universidade.




Filha de um operador de máquina extrusora e de uma dona de casa, Carolina perdeu a audição aos cinco anos.  Cursou o ensino fundamental e o médio em escolas particulares, mas não fez cursinho para ingressar na universidade. “Pedi materiais emprestados de amigos e tentava estudar do meu jeito”, conta ela, que hoje é professora no Centro Municipal de Educação Infantil Hugo Peretti, em Curitiba.

O ingresso na UFPR, em 2012, mudou não apenas a formação de Carolina, mas também a relação dela com sua própria condição de surda. “Até ingressar na universidade eu ainda não tinha assumido a minha identidade surda e não falava com frequência na Língua Brasileira de Sinais. Eu fazia a leitura labial, mas me perdia muito nas discussões e debates em sala, me deparava com pessoas com pouca articulação na fala, com bigodes e barba que atrapalhavam e até mesmo que falavam de costas, impossibilitando a leitura labial”, relata.

Ao terminar o ensino médio, Carolina decidiu fazer diferente: “Comecei a me aceitar como surda e pedir por intérpretes de Libras/Língua Portuguesa nas aulas. Foi na UFPR que descobri o quanto tinha perdido sem a Língua de Sinais e que a presença de interprete é fundamental na minha aprendizagem. Quando me comunico em Libras me sinto eu mesma, com menos barreiras a enfrentar”.

A coordenadora do curso de Letras Libras da UFPR, professora Sueli Fernandes, lembra que até o ingresso de Carolina a universidade não dispunha de um corpo próprio de tradutores e intérpretes de Libras. Os profissionais eram contratados temporariamente para atender as necessidades – como bancas de vestibular, por exemplo, organizadas pelo Núcleo de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais (Napne).

“A universidade já recebia alunos com perdas auditivas, mas a maioria não é usuário de Libras”,  informa.

A primeira estudante surda bilíngüe, usuária da Língua Brasileira de Sinais (Libras), formada pela UFPR foi Maria Conceição Bueno Pereira. Ela graduou-se em Licenciatura em Artes em 2014, no Setor Litoral, “mesmo contrariando as estatísticas e os fatos”, como escreveu em seu convite de formatura.

Maria Conceição estudou em escolas públicas do litoral paranaense, onde aprendeu Libras. Na UFPR, ela recebeu atendimento especializado, por meio da Seção de Políticas Afirmativas, Assuntos Estudantis e Comunitário (Sepol) e das professoras Luciana Monteiro e Francelli Brizola. Tradutores e intérpretes estiveram ao lado dela nas aulas e fazendo a tradução e adaptação de conteúdos.

Para Ringo Bez de Jesus, um dos tradutores que participaram dessa jornada, a experiência trouxe ganhos não apenas para Maria Conceição, mas também para professores e colegas de classe que tiveram a oportunidade de vivenciar essa realidade.

Em seu trabalho de conclusão do curso – intitulado “O pensado e o vivido: criação de uma obra artística sob a perspectiva da cultura surda, de uma acadêmica surda” – Maria Conceição relata os desafios que enfrentou para ter acesso à educação  e, ao final, deixa uma mensagem que ilustra a importância da acessibilidade nas instituições de ensino: “Chegar até aqui não foi nada fácil, porém, para mim, e para muitos surdos como eu, o difícil não está em terminar, mais sim em começar, pois muitas são as barreiras que tentam impedir o início de uma linda jornada, mas que é inútil, pois essas barreiras são tão frágeis e corruptíveis como aqueles que as criaram”.

Maria Conceição Pereira e os tradutores/intérpretes Ringo Bez de Jesus e Sérgio Ferreira, que a acompanharam durante o curso no Setor Litoral. Foto: acervo pessoal.

Viver sem Limite

Em 2014, a UFPR foi contemplada pelo Programa Viver sem Limite do governo federal, voltado à implantação de licenciaturas em Letras Libras. Para apoiar a implantação, o governo fornecia um “enxoval’ composto por vagas para professores e tradutores/intérpretes, além de recursos para compra de equipamentos. A partir daí, a UFPR passou a se estruturar para dar suporte aos alunos surdos bilíngues, num esforço concentrado sob a bandeira “Construindo a UFPR bilíngüe”.

A turma que ingressou este ano é a terceira do curso de licenciatura em Letras Libras. O curso é voltado preferencialmente para alunos surdos, mas reserva 30% das vagas para ouvintes.

Alunos de Matemática

Em outros cursos, o número de alunos surdos ainda é pequeno. Sete deles cursaram ou cursam mestrado na área da Educação. Este ano, pela primeira vez, a UFPR recebeu estudantes surdos em cursos da área de Exatas: uma no mestrado e outro na graduação em Matemática.

Felipe Augusto Chmura, de 18 anos, foi aprovado nas duas primeiras fases do vestibular para o curso de Matemática, como cotista de escola pública. Na semana passada ele iniciou o primeiro semestre letivo, que faz parte do processo seletivo estendido. Precisará ser aprovado nas duas disciplinas iniciais para continuar no curso.

Felipe concilia as aulas com o trabalho numa grande rede de supermercados, onde ajuda no caixa empacotando mercadorias. “Sei que não vai ser fácil, mas sou esforçado e vou conseguir. Precisamos de pessoas surdas na área de Matemática”, diz Felipe. “Sinto orgulho de estar no meio de tantos e me ver como igual.”

A mãe, Adriane, conta que Felipe nasceu com surdez bilateral profunda e estudou a vida toda em escolas públicas. Ela é diarista e o marido, soldador. “Foi uma caminhada difícil, mas ele conseguiu superar. Felipe sempre gostou dos números”, diz.

Para a professora Sueli Fernandes, histórias como as de Carolina e Felipe são significativas por demonstrar que os interesses da comunidade surda são os mesmos da comunidade em geral. “Há uma tendência de ingresso de alunos surdos, em diferentes áreas. Cabe à nós, da universidade, dar a resposta adequada aos direitos linguísticos desses alunos”, afirma.

Carolina, que agora pretende cursar mestrado em Educação, espera que sua história se repita com outros surdos: “Fico feliz em saber que posso ser o espelho de outros surdos, que posso encorajá-los”.

Apoio

Alunos como Felipe e Carolina contam com o apoio de tradutores e intérpretes de Libras para estudar na UFPR. Eles acompanham os estudantes em todas as aulas, traduzindo o conteúdo.

Jonatas Medeiros, que é tradutor de Libras na UFPR e também aluno do curso de Letras Libras, realizou uma pesquisa que mostra que a grande maioria dos estudantes surdos da instituição tem dificuldades com a leitura de textos em Língua Portuguesa. “Só 21,4% disseram não possuir nenhuma dificuldade. Dos restantes, 57,1% apresentam um pouco de dificuldade, 14,3% têm grande dificuldade e 7,1% não conseguem ler em Português”, conta.

Além de fornecer tradutores para acompanhamento presencial dos alunos surdos, a Coordenação do Curso de Letras Libras Libras da UFPR mantém um estúdio onde são produzidos vídeos para tradução de textos acadêmicos para Libras. Os textos são traduzidos mediante demanda de professores e orientadores de pesquisas, e disponibilizados para os alunos na internet.

Extensão

A UFPR oferta ainda, desde 2013,  cursos de extensão em Letras Libras, dividido em três módulos: básico, intermediário e avançado. A partir de 2016, os cursos são ofertados pelo Núcleo de Ensino de Libras, cada nível com 100 horas/aula. O curso é gratuito e aberto a estudantes, docentes e técnicos administrativos da UFPR, familiares de surdos, profissionais que trabalham com surdos e/ou libras e comunidade externa em geral.

Outro projeto do Núcleo de Ensino de Libras, vinculado à Coordenação de Letras Libras, é o Cine Debate, que consiste na apresentação e discussão de filmes traduzidos para a Língua de Sinais. Os filmes são apresentados em sessões para as quais a comunidade surda é convidada a vir até a UFPR. “Percebemos que a UFPR é vista pela comunidade surda como um espaço do ouvinte. Então, a ideia é mostrar que a universidade é para todos”, conta Jonatas, que é um dos responsáveis pelo projeto.

Até agora foram realizadas duas sessões, com os filmes Central do Brasil e O Doador de Memórias.

Para o segundo semestre, informa a professora Sueli Fernandes, está prevista a abertura do curso de Pedagogia Bilíngue (Português/Libras) na modalidade de educação a distância, promovido pelo Instituto Nacional de Surdos (INES), com polo na UFPR.

Lorena Aubrift Klenk

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