Geleiras derretendo, espécies extintas e novas epidemias: Carlos Nobre explica por que vivemos uma catástrofe; ouça podcast

04 novembro, 2020
20:14
Por laurasomoza
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Ciência e Tecnologia

Negar a mudança climática e a participação do homem em fenômenos ocasionados por ela não é mais aceitável. E o adjetivo catastrófico nem de longe pode ser considerado exagerado se levarmos em conta os alertas da ciência nessa direção. Em entrevista ao programa da Coalizão UFPR pela Década dos Oceanos, o cientista e professor Carlos Nobre, uma das maiores autoridades desse assunto no mundo, não poupou explicações e alertas, destacando também as relações entre clima e oceano na natureza. O programa também está disponível em podcast (clique e ouça).

Nobre, que assinou o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) agraciado com um prêmio Nobel da Paz em 2007, comparou os negacionistas do aquecimento global a terraplanistas, apontando evidências concretas sobre o aumento da temperatura no mundo e destacando sua conexão com fenômenos climáticos que podem ocasionar desastres naturais, como as chuvas intensas e as secas. A entrevista foi conduzida pela pesquisadora Camila Domit, coordenadora do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR, e pela professora Renata Hanae Nagai, coordenadora do Laboratório de Paleoceanografia e Paleoclimatologia, ambas do Centro de Estudos do Mar (CEM).

Derretimento das geleiras ameaça equilíbrio e biodiversidade (Imagem de MICHOFF por Pixabay)

De acordo com o cientista, cerca de 50 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa são emitidos todos os ano. Esses gases são absorvidos em cerca de 56%, mas outros 44% permanecem na atmosfera – a maioria vinda da queima de combustível fóssil, mas também da agricultura, do desmatamento e das atividades industriais. “Permanentemente nós estamos recebendo um fluxo de gás carbônico que vem da atmosfera. O efeito estufa é um fato muito solido da ciência. Negar o aquecimento global é ser terraplanista“.  

A conexão desses processos com o oceano foi explicada pelo professor. Segundo ele, o tempo de ajuste dos efeitos do aquecimento no continente é mais rápido, o que não ocorre no mar, cujos processos são mais lentosEstes efeitos levam ainda mais tempo para serem sentidos quanto maior for profundidade. No entanto, qualquer variação na temperatura das águas já é capaz de acarretar num volume maior de chuvas e no consequente aumento do nível do mar. Fenômenos como o El Nino também conectam o clima ao oceano e podem resultar em consequências negativas. 

Entre as consequências já sentidas e previstas, o derretimento das geleiras é um dos que causam grande preocupação na comunidade científica. Entre outras coisas, ameaçam espécies marinhas e podem trazer à tona novas doenças, com a liberação de vírus e microorganismos que não existem mais e que podem voltar à ativa. A previsão é de que os fatos, interligados, gerem desequilíbrios à biodiversidade.

Corais também estão sob ameaça (Imagem de Pexels por Pixabay)

Outro dado relacionado ao oceano visto com atenção por Nobre foi destacado em um relatório recente do IPCC, que afirmava que uma pequena diferença de 1,5 para 2 graus de aumento na temperatura no mar pode representar a extinção de 90% dos recifes de corais, responsáveis pelo abrigo de muitas espécies de peixes. Eles já estão no limite, num ponto de não retorno“, reforça. “Usar a palavra catastrófico não é exagero“. 

As previsões da ciência é de que, mesmo com as medidas mais urgentes de mitigação, o oceano vai levar milênios para se ajustar. Tudo que estamos jogando na atmosfera hoje o efeito não é imediato, leva de 20 a 30 anos. Os tempos de resposta são muito importante“, ressalta. Para o professor, é importante que os cientistas comuniquem essas conexões ao público e que, de um modo geral, tornem-se advogados da causa. “O risco que a biodiversidade e que nós corremos, toda a perturbação que temos feito no planeta, nós não podemos mais ter uma vida dissociada de mostrar os riscos. A causa não é política, não é ideológica: é uma causa de salvar o planeta e de nos salvar também”.  

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A Coalizão 

Os pesquisadores e as pesquisadoras da Universidade Federal do Paraná que estudam temas relacionados aos oceanos estão convidados a se unirem em torno de um objetivo: formar uma coalizão institucional para planejar ações relacionadas à Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, estipulada pela Organização das Nações Unidas para os anos de 2021 a 2030. O primeiro passo é preencher um formulário para que a rede seja mapeada e se estabeleça. 

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Texto atualizado na sexta-feira, 6/11, para disponibilizar o podcast da edição

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