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Documentário premiado no Jovem Jornalista revela aumento de câncer em agricultoras do sudoeste do Paraná

Anualmente, no Brasil, a cada cem mil mulheres, 63 apresentam câncer de mama, enquanto no sudoeste do Paraná o número de casos sobe para 90. A associação do risco da doença com a exposição aos agrotóxicos, nessa região do estado, é tema de pesquisa da professora do curso de Medicina da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Carolina Panis.

Esses estudos motivaram um grupo de estudantes de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) a desenvolverem o documentário “Nem pop, nem top – um drama de saúde pública no centro do agronegócio”, que reporta a proximidade de agricultores com os pesticidas, legais e ilegais, utilizados em escala industrial no sudoeste do Paraná, uma das regiões mais pródigas do país na produção de grãos.

Na obra, Izabela Morvan da Silveira, Lucas Daniel de Lima e Mayala Tereza Fernandes retrataram mulheres, pequenas agricultoras, que estão no final de uma escala de produção baseada na aplicação de venenos cada vez mais mecanizada e anônima. Suas famílias se integram à engrenagem do agronegócio por meio do arrendamento de terras ou pela proximidade com os grandes produtores.

O documentário foi exibido na cerimônia de premiação do Prêmio Jovem Jornalista, na segunda-feira (24). Fotos: André Bueno / Rede Câmara

De acordo com Carolina, o sudoeste do Paraná apresenta 41% mais casos de câncer de mama do que o estado do Paraná e a mortalidade no local chega a ser 17% maior do que no resto do Brasil. Com relação aos agrotóxicos, as mulheres que sofrem com essa exposição têm 32% mais chances de desenvolver a doença e 50% mais probabilidade de manifestar metástase.

“Estamos em um país que libera novos agrotóxicos todos os dias. E a intoxicação é recorrente por conta disso”, revelou a pesquisadora aos estudantes. Nos últimos quatro anos, foram aprovados 1801 agrotóxicos no Brasil. O país ocupa a primeira posição no ranking de consumidores mundiais de agrotóxicos, ultrapassando a marca de um milhão de toneladas por ano.

O manejo inadequado dos pesticidas, um dos fatores que contribuem para os casos de câncer, acontece até mesmo na lavagem das roupas utilizadas pelos responsáveis pela pulverização. “Normalmente, o marido e os filhos realizam a pulverização e levam as roupas e os equipamentos de proteção para a mulher descontaminar. Nesse processo, a mulher não usa luvas de borracha”, exemplifica a docente de Medicina, alertando também que, a partir daí, a máquina de lavar roupa se torna uma fonte de propagação da contaminação por agrotóxico.

Uma das personagens entrevistadas, a agricultora Janete Wolf, de 51 anos, conta que, depois do câncer, ficou impedida de realizar várias atividades, como fazer movimentos repetitivos e realizar esforço. Entre os entrevistados da produção, também estão pesquisadores da área de Geografia e Oncologia, além da presidenta da Associação de Estudos Orientação e Assistência Rural (Assesoar), agricultores e moradores da região.

O processo de produção

O orientador do documentário e professor do curso de Jornalismo da UFPR, José Carlos Fernandes, conta que foi feita uma pesquisa de caráter documental sobre a contaminação por agrotóxicos, no Paraná. “Há várias regiões com casos, mas Francisco Beltrão conta com dados mais avançados. Foram duas imersões da reportagem, incluindo idas ao interior do interior, por estradas de chão, em busca de mulheres dispostas a falar sobre o que lhes ocorreu”.

Uma das autoras da reportagem, a estudante Mayala Fernandes, explica que pouco se pensa nas mulheres quando se imagina uma lavoura e a aplicação de agrotóxico e que, por isso, a descoberta de que essas mulheres são tão gravemente expostas quanto os seus familiares, que trabalham na aplicação direta dos pesticidas, destacou-se. “Ouvimos os relatos dessas mulheres e percebemos que chama ainda mais atenção o fato de elas não se sentirem atingidas, mas mesmo assim desenvolverem doenças, como o câncer de mama, com elevado grau de agressividade”.

A jovem acredita que ter essa pauta premiada em um momento em que o país libera agrotóxicos de forma indiscriminada é extremamente significativo. “Ver um tema como esse ser pautado e reconhecido pela sua importância é um alerta para que sejam feitas ainda mais produções e que se investigue o que acontece com os trabalhadores expostos aos venenos”, destaca.

Prêmio Jovem Jornalista

O documentário foi um dos quatro vencedores da 14ª edição do Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, promovido pelo Instituto Vladimir Herzog.

A premiação aconteceu na última segunda-feira (24), na Câmara Municipal de São Paulo. Os estudantes tiveram oportunidade de mostrar as reportagens produzidas no âmbito do prêmio e contaram para o público detalhes do processo de pesquisa, apuração e produção dos materiais jornalísticos finais.

Nesta edição, o prêmio incentivou o recebimento de pautas que traduziam as necessidades e as esperanças de um país assolado por emergências sanitárias, desastres ambientais, ataques à democracia e seus valores, desinformação, violência, desigualdades e fome. As quatro melhores propostas de pauta foram selecionadas e, com o apoio financeiro do Instituto Vladimir Herzog e a mentoria de jornalistas profissionais, transformadas em grandes reportagens. Confira aqui todos os premiados.

O professor José Carlos comenta que essa é a terceira seleção da UFPR para o Prêmio. “As outras aconteceram em 2013 e em 2016. É uma experiência muito rica para nossos alunos”.

Assista ao documentário: “Nem pop, nem top – um drama de saúde pública no centro do agronegócio”.

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