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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ


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FEDERAL DO PARANÁ

Aluna de Publicidade se destaca como escritora, ilustradora e pesquisadora ao produzir livro infantil que aborda o feminismo

A turma de Publicidade e Propaganda que se forma este ano na UFPR revelou um talento especial: Isabelle Silva dos Santos apresentou como trabalho de conclusão de curso um livro infantil escrito e ilustrado por ela, a partir de uma ampla pesquisa teórica e de entrevistas e atividades com crianças. A obra, intitulada “Vivi Lobo e o quarto mágico”, propõe uma ruptura com padrões comumente associados a meninos e meninas, falando de liberdade, protagonismo e empoderamento infantil.

Foto: Arquivo Pessoal

Vivi Lobo é mais do que a protagonista de uma história que leva a repensar de forma crítica as representações femininas na literatura infantil. A personagem é o resultado de muita pesquisa e trabalho de campo e é também a representação da própria autora e de sua evolução pessoal, suas superações e seu processo de autoconhecimento e autoaceitação. Além disso, ela e sua história simbolizam a luta de muitas mulheres que não se conformam com alguma característica inerente a suas vidas ou à sua condição de gênero.

Isabelle conta que o processo de construção do trabalho começou com uma profunda pesquisa teórica e com a busca por autores que tratam do conceito de representação social, papéis de gênero e questões que envolvem a infância e a literatura para esse público. Após consolidar a parte teórica, a estudante mergulhou no mundo sobre o qual estava querendo refletir e procurou dar voz às crianças: “Afinal, se eu estava pensando em fazer um livro infantil, nada mais natural do que perguntar para as próprias crianças sobre seus gostos e pensamentos e entender a realidade infantil – de acordo com o recorte social pretendido – e como elas representam a si e ao outro”.

A estudante conta que promoveu uma atividade lúdica com crianças, às quais propôs desenhar e criar personagens de ambos os gêneros. Também entrevistou e realizou um grupo focal com 24 crianças da Escola Anjo da Guarda, em Curitiba. “Todo o material coletado, entre vídeos, entrevistas e desenhos, embasou direta e indiretamente a criação do livro, a escolha do enredo, a narrativa e os personagens”, explica Isabelle.

De acordo com o professor Fábio Hansen,  orientador do TCC da estudante, o contato com as crianças foi extremamente enriquecedor para ambos. “Nessa fase da pesquisa surgiram as principais descobertas e diversidade de pontos de vista. Foi dando voz às crianças que elas alimentaram com conteúdo a criação do livro infantil ilustrado”, relata Hansen, fazendo questão de destacar não só o produto final do trabalho, isto é, o livro, como todo o processo de pesquisa e de aplicação dos conhecimentos no desenvolvimento desse projeto.

Isabelle se propôs a realizar esta obra visando aproveitar sua posição de mulher, aluna de comunicação, ilustradora e fã de literatura para ajudar a ampliar o debate sobre as questões de gênero e temas sociais relevantes dentro e fora da academia. “Vivi Lobo e o Quarto Mágico” se concretizou a partir da pesquisa realizada pela estudante, que investigou a representação feminina infantil nas narrativas ficcionais e de comunicação consumidas por adultos e crianças.

O enredo

Foto: Thalita Zukeram

Na história, Vivi Lobo é uma menina divertida e corajosa, dona de muitos cachos. Ao mudar para uma casa nova com sua família e finalmente ter um teto todo seu, percebe que seu quarto tem poderes mágicos. Ela pode viajar no espaço-tempo. Assim começa sua aventura, conhecendo diversas garotas inspiradoras ao redor do mundo, do presente e do passado.

Ao viver muitas surpresas em suas andanças, descobre o poder da escrita e da amizade, enfrentando, assim, o seu maior conflito interno: não gostar do próprio nome. O principal intuito é diversificar e pluralizar as possibilidades do ”ser” mulher, suas características, profissões, ambições e, dessa forma, questionar algumas coisas que são tidas exclusivamente como masculinas. “O livro tem por objetivo maior posicionar a mulher como narradora, criadora de sentidos, dona de sua própria história, liberdade e voz”, conta a autora.

A inspiração para a trama veio de experiências reais conhecidas e vivenciadas por Isabelle. “É uma história sobre muitas histórias. Histórias de mulheres com as quais convivi, experiências com as crianças durante as entrevistas e atividades, minhas histórias e também de outras que li por aí”, explica. A obra também faz homenagens a mulheres que tiveram papéis importantes no contexto histórico mundial e também no feminismo.

A personagem principal, Vírginia Lobo, é uma referência à escritora inglesa Virginia Woolf, que lutou pelo lugar feminino na literatura, defendendo no livro ”Um Teto Todo Seu” que todas deveriam ter um espaço próprio e as condições necessárias para serem escritoras e protagonistas de suas narrativas. “O quarto mágico de Vivi, para além de um quarto mágico, representa ludicamente um estado, uma posição enquanto mulher produtora de sentido, de conhecimento e de sua própria emancipação. Sendo também um incentivo para que mais meninas se aventurem a escrever sobre suas vivências”, diz a estudante.

Protagonismo feminino

Isabelle conta que aborda o feminismo e a luta das mulheres de forma sutil e lúdica ao longo do enredo, pois sua ideia não era produzir uma cartilha sobre gênero, mas sim um produto adequado ao gênero literário para crianças. “Falamos sobre feminismo quando o próprio lugar de fala da personagem principal é marcado por uma protagonista menina que conta e narra sua história de forma autônoma. O caminho que Vivi faz enquanto narradora é uma forma de inserir um diálogo sobre essas questões”, comenta.

Um dos conflitos vivido pela personagem central é o desgosto pelo seu próprio nome. O sobrenome Lobo faz com que ela receba o apelido de Vivi-cara-de-lobo, abordagem que leva a refletir sobre bullying e autoaceitação. A autora conta que esta também foi uma forma de retratar traços de sua própria história. “Fui uma criança que tinha uma gagueira severa e não gostava do meu corpo. Era uma grande agonia, na época, não aceitar como eu tinha nascido e ainda assim enfrentar o bullying. Tentei colocar isso de alguma forma na narrativa, pois sei que não é uma luta só minha”.

Assim como Isabelle, Vivi também aprendeu a superar essas questões. No final da história, a menina, por meio da ajuda de outras mulheres e de sua escrita, consegue ressignificar seu nome e encontra cura justamente no que mais a machucava. Segundo a estudante, esta foi uma inspiração na autora americana Clarissa Pinkola Estes que escreveu “Mulheres que correm com os lobos”, comparando a grande força e resistência que os lobos e as mulheres possuem de forma similar.

Hansen salienta que o objetivo da abordagem é ampliar o diálogo sobre liberdade, equidade e empoderamento infantil, bem como entender a comunicação como sendo efetivamente social, como modo de ruptura de padrões normativos, conectada aos movimentos sociais em favor da luta pelas mulheres. “Em especial, destaco a comunicação como espaço de voz e visibilidade a uma essência reprimida e dominada que está irrompendo, que está deixando de reproduzir o discurso da dominação e começa a encontrar na comunicação um lugar para a resistência e para a ruptura”, diz.

Público

Foto: Thalita Zukeram

O livro é destinado a meninas e meninos entre 8 a 10 anos idade que, de acordo com o Ministério da Educação (MEC), representa o período de maior evolução na leitura, sendo de grande importância para a criação desse hábito. “Contudo, essa definição não é excludente, o livro pode abranger públicos secundários: crianças de outras idades e adultos”, explica Isabelle.

A estudante conta que a escolha desse público foi algo pessoal, pois ela gostaria muito que em sua própria infância tivesse entrado em contato com materiais que tratassem sobre temáticas de gênero, conflitos e aceitação das diferenças. “Em minha vivência, este foi um assunto muito negligenciado ou quase inexistente, o que me fez perceber atualmente a importância de se discutir abertamente sobre essas questões”. Mas a possibilidade de trabalhar temas importantes de forma lúdica e descontraída, características da literatura e do imaginário infantil, também chamou a atenção dela. “As crianças possuem uma capacidade de reinventar a realidade, esse espírito de renovação tem muito a ver com a luta das mulheres: acreditar que as coisas podem ser diferentes”, relata.

Futuro

Apesar de ser a primeira vez que Isabelle se aventura em um trabalho para crianças, a escrita e a ilustração sempre fizeram parte da vida dela. “Mais que um hobby, sempre foi nitidamente uma extensão da minha voz, aquela que eu não costumava ter na infância. Ao crescer e entrar na universidade, vi que além de ser algo que amo e me interessa, isso poderia se tornar o meu instrumento de trabalho”, conta.

A futura publicitária também já ajudou a produzir publicações independentes como fanzines, tirinhas e cartilhas. Além disso, fez ilustrações, projetos gráficos e capas de livros. Atualmente, ela concentra suas energias na viabilização de seu livro infantil e em formas de disseminar esse conteúdo. “Um dos meus propósitos no desenvolvimento da pesquisa e na criação do livro é que ele possa, de alguma forma, dar um retorno à sociedade do trabalho e conhecimento que é produzido e pensado dentro da universidade pública. Gostaria muito que crianças e adultos pudessem ter acesso e compartilhassem suas impressões e críticas.”, conta a jovem que coloca o trabalho com literatura infantil como um de seus futuros projetos.

Mensagem e aprendizado

Foto: Thalita Zukeram

A autora conta que o projeto como um todo fez com que ela mudasse sua visão sobre a infância. “Muitas vezes, de forma equivocada ou sem mesmo perceber, julgamos as crianças como seres extremamente ingênuos ou até incapazes em algum nível devido a sua idade, ignorando a grande capacidade intelectual, criativa e inventiva que meninos e meninas igualmente possuem desde cedo”, explica.

“Vivi Lobo e o quarto mágico” é fruto da contribuição e da troca realizada entre as crianças e a estudante. Além da forma de pensar, trabalhar sobre esse aspecto também fez com que ela percebesse e ficasse otimista com relação ao novo espaço que vem se abrindo para a ruptura dos discursos normativos e nocivos a respeito das temáticas de gênero.

Segundo Isabelle, a principal mensagem de sua obra é sobre liberdade, autonomia, amizade entre mulheres e aceitação. “Todas as pessoas e todas as mulheres possuem grandes e pequenos lobos dentro de si. E é por meio do enfrentamento das dores, da resistência e da compreensão que é possível encontrar a cura, a força e também a liberdade em conjunto com as pessoas que nos cercam. Sobretudo, é uma mensagem para que todas as meninas e crianças sejam aquilo que elas querem ser, sem restrições”, finaliza.

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